Há muito tempo atrás
Aqui havia uma padaria
Pedro Gorgonha seu dono
E pelas ruas gritavam
Garotos com seus cestões
“Inhé, pão doce! Quem vai querer?”
Pronto — não há mais!
Há muito tempo atrás
Zé vendia pirulitos
Cobertos de papel seda
Rosa, branco, amarelinho
Tabuleiro furadinho
Do mais gostoso palito
Pronto — não há mais!
Há muito tempo atrás
Aqui havia o prédio da “União”
Cheio de cantos, recantos
Palco, janelas, salão
Impregnado de baile e som
Pronto — não há mais!
Há muito tempo atrás
Aqui havia um colégio
Chamado Santa Terezinha
Salões ventilados, pisos mosaicados
Meninas de fardamento gala
Pronto — não há mais!
Há muito tempo atrás
Aqui havia um bar
Com sinucas e bilhar
Luis Jacó seu dono era
Coladinho, o cinema
Durang Kid e Tarzan
Pronto — não há mais!
Há muito tempo atrás
Aqui havia um café
Sua dona, Dona Dulce
Cocadinhas açucaradas
De coco, leite e mamão
Potes enfileirados
Pronto — não há mais!
Sem esquecer
Dona Hilda — hotel afamado
Viajantes procuravam
O seu quarto desejado
Tecidos e papéis
Encantavam a criançada
Há pouco tempo atrás
Aqui havia um café
Cheio de gente escolhendo
O caldo que convier
Era o café de Ariza
Pronto — não há mais!
Uma farmácia — Seu Aldenor
Indústria Colins — Seu Antenor
Doutor Lauriston Rocha
Doutor Iderval também
Bodega Quinco Dudé
De tudo se tinha ali...
Também o bar do Barão
Na mecânica Seu Raimundo
Praça dos carros
Lojas Manduca
Chiquinha do café
Pronto — não há mais!
E a nossa feira livre?
Serelino nos sapatos
Banquinhas de quebra-queixo
Sacos de farinha alva
Feijão, milho, rapadura
Pronto — não há mais!
A cidade destrói, constrói,
Reconstrói
Uma árvore, umas figueiras
O ranger do carro de boi
Moagem — cana caiana
Pronto — não há mais!
Na política — Seu Henoque
Seu jogo de gamão
Varrendo sua calçada
O seu pedaço de chão
Os Congos e seus enfeites
No pátio da igreja a brilhar
Maria Ribeiro do Congado
O grito de Seu Hagábio
Antônio do Motor também
Ecoando ao som do vento
Leilão de Nossa Senhora
Pronto — nunca mais!